Centro de Ensino Teológico Saber e Fé

TEOLOGIA E FILOSOFIA

Eu seria a última pessoa do mundo a desprezar a filosofia. Seu sentido é muito belo – amor à sabedoria. Não devemos nós amar a verdadeira sabedoria? Não nos manda as Escrituras buscar a sabedoria a qualquer preço? Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento (Provérbios 3.13). Logo, de algum modo, a filosofia é importante.

            Claro que a sabedoria bíblica difere da grega. Ela nunca foi especulativa, nunca sondou certos assuntos que os gregos sondaram. A sabedoria hebraica era prática, relacionada às questões mais imediatas da vida. Essa é apenas uma das diferenças. Há, porém, mais duas diferenças essenciais e que precisam ser reconhecidas e levadas em conta, sempre que procuramos nos aproximar da herança do pensamento grego.

            Em primeiro lugar, na sabedoria bíblica, Deus é o centro. Ninguém que O ignore pode ser considerado sábio. O verdadeiro conhecimento, a verdadeira inteligência, a verdadeira sabedoria não apenas O incluem, mas começam Nele. O temor do Senhor é o princípio do conhecimento e da sabedoria (Pv 1.7; Jó 28.28). Qualquer sabedoria que não comece nele será incompleta. Não podemos negar que sempre houve na história homens sábios, mas aqueles que deixaram Deus de fora foram deficientes em seus conhecimentos. Nada é completo sem Ele, nem a maior das sabedorias. Quem diz que Deus não existe, é tolo (Salmo 14.1)

            Em segundo lugar a sabedoria bíblica é fruto da revelação e não da mera capacidade humana de raciocinar, de pensar, de deduzir. Destas [coisas divinas]  também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina… (1 Co 2.13). De modo algum o apóstolo Paulo era um ignorante da filosofia grega. De modo algum ele era ignorante quanto a sabedoria humana, fruto da experiência e da vivência. Mas aquilo que ele estava expondo não tinha origem no homem, mas em Deus.

            Qualquer pessoa que queira estudar teologia e que se aproxime da filosofia tem que entender muito bem a diferença entre ambas. Do contrário, estará tentando unir coisas de naturezas diferentes como se fossem iguais. O híbrido que disso tem surgido não chega a ser filosofia, mas com certeza é uma falsa teologia. Não revela a Deus e ao Seu plano, mas os esconde.

            Sem dúvida, ambas possuem pontos convergentes. No entanto, ambas com certeza possuem pontos divergentes e se esses pontos forem ignorados teremos distorções na compreensão da realidade ao invés de um resultado coerente.

TEOLOGIA E FILOSOFIA SE ENCONTRAM

            O ser humano é um “animal em busca de respostas”. Respostas para perguntas que só ele faz. Quem sou, de onde vim, para onde vou, que faço aqui. Muito cedo, senão todos, ao menos as mentes reflexivas se deparam com essas questões e são essas que levam as pessoas para muitos lugares e as levam a fazer inúmeras coisas. Não são as respostas que movem o mundo e sim as perguntas. E quando lemos a Bíblia estamos em busca de repostas para elas, da mesma forma que faziam os filósofos pré-socráticos quando contemplavam as estrelas nos campos da Ásia Menor.

            Com certeza, isto não torna as respostas da Bíblia iguais às respostas da filosofia. No entanto, demonstram o mesmo ser humano igual em todos os tempos e lugares ansiando por entender o significado de sua existência.

A filosofia e a religião [teologia] lidam com as mesmas questões básicas. Os cristãos, especialmente os cristãos evangélicos, tendem a esquecer disso. A filosofia e a teologia não tratam de questões diferentes, embora deem explicações diferentes e usem terminologia diferenciada.[1]

            Outro fato importante é que as filosofias têm se desenvolvido em sistemas complexos buscando explicar tudo ao seu redor. E essas explicações diversas são abraçadas por um número cada vez maior de pessoas. Muitas delas se oferecem como uma opção diante do cristianismo e seus adeptos se apegam a elas, muitas vezes, com um fervor igual ou maior do que a uma religião.

            Desse modo, temos vivido em um mundo onde o cristianismo não é unânime e onde diversas correntes filosóficas disputam o espaço na ágora, querendo ser ouvidas não como uma ideia, mas como uma verdade inquestionável. E nesse ponto, vem o conflito com o cristianismo, dentro das salas de aula, nas academias, nos livros, na internet, na cultura de um modo geral. Conhecer tais filosofias se tornou uma necessidade.

Os cristãos têm tendido a desprezar o conceito de filosofia. Esta tem sido uma das fraquezas do cristianismo evangélico ortodoxo – temos nos vangloriado em nosso desprezo à filosofia e nos orgulhado excessivamente da condenação de tudo quanto diz respeito ao intelecto. Nossos seminários teológicos dificilmente fazem qualquer relação entre a sua teologia e a filosofia, principalmente no que diz respeito à filosofia contemporânea. Assim, os estudantes formam-se nos seminários teológicos sem a mínima noção de como relacionar o cristianismo às visões de mundo ao seu redor. Não que eles não saibam respostas. Pelo que tenho observado (…) desconhecem as perguntas.[2]

A TEOLOGIA É DO CÉU, A FILOSOFIA É DA TERRA

            Mas há algo que não pode ser esquecido dentro desse ambiente que manuseia tanto a teologia quanto a filosofia. A primeira tem como matéria-prima básica, a revelação nas Escrituras. A segunda assenta-se sobre a razão humana reclinada sobre o mundo. A primeira não despreza a razão, mas tem nela uma mera ferramenta com a qual garimpa aquilo que Deus disse. A segunda desconhece ou desconsidera a possibilidade de revelação, e se entrega às apalpadelas racionais, considerando a razão uma espécie de deusa infalível.

            A luta entre fé e razão não é nada nova. Vem desde os primeiros tempos quando o Evangelho deixou o reduto hebraico e penetrou no mundo da cultura greco-romana. Paulo, ou melhor Shaul, estava em Atenas, em pleno areópago, onde os dois mundos se encontraram. A partir dali os grandes pensadores cristãos estiveram lutando ao longo dos séculos para conciliar fé e razão. E na Idade Moderna, com a vinda do Iluminismo a razão divorciou-se definitivamente da fé e a filosofia começou sua jornada solitária em conflito com todas as verdades trazidas pela revelação. E então a filosofia tem escolhido seus próprios caminhos muitas vezes se recusando a aceitar que existe uma revelação divina sem a qual, qualquer busca, por melhor que seja, será “um cego procurando em um quarto escuro, um gato preto que lá não está”.

            Um ateu, diante dessa frase, disse que “o teólogo é o cara que achou o gato”. Não. O teólogo sempre esteve com o gato em suas mãos, porque com humildade aceita a revelação divina dada aos homens por meio da inspiração das Sagradas Escrituras. E a partir dela formula as respostas que tanto a religião quanto a filosofia buscam.

QUANDO A TEOLOGIA SE RENDE

            Seria muito bom se toda teologia reconhecesse a superioridade da revelação sobre a razão. Infelizmente, a teologia nos últimos séculos tem sido apenas o reflexo da má filosofia ao seu redor. Ao invés de entender seu papel profético, de denunciar todo intelectualismo enganoso, ela deixou-se seduzir por uma verbalização complexa e enganosa, submetendo-se a falsos pressupostos. Filosofias humanas, de fato, engoliram as teologias divinas. Ao invés da teologia ser a exposição das Escrituras, tornou-se uma exposição das filosofias ao redor. O ouro do templo foi trocado por bronze.

            Talvez de modo simplificado, podemos falar de três sistemas filosóficos que perverteram o pensamento teológico no decorrer dos últimos quatro séculos: o naturalismo, o existencialismo e o marxismo.

            O primeiro negava a existência do transcendente, do milagroso, da possibilidade do sobrenatural. O segundo reduziu tudo à mera experiência humana, criando um abismo entre realidade e subjetividade que tentava salvar a fé transformando-a em algo menos do que confiável. E por fim, o terceiro, o marxismo, que reduziu o homem a um mero ser social.

            A teologia, primeiramente alemã, foi seduzida pelo marxismo e criou a teologia liberal que não passa de incredulidade disfarçada. Tentou explicar os milagres racionalmente e toda história bíblica não era mais Deus se revelando aos homens, mas somente homens relatando suas experiências religiosas. Teologia tornou-se antropologia.

            No segundo caso, os neo-ortodoxos, como Barth, Bultmann e Brunner, tentando “salvar a fé”, abraçaram o existencialismo e continuaram negando a realidade concreta dos acontecimentos bíblicos. A ressurreição de Cristo, por exemplo, não havia acontecido em algum lugar e em algum modo, mas somente na percepção dos discípulos. Não havia necessidade de fatos para confirmar a fé. A fé era superior aos fatos. A subjetividade não dependia da objetividade. A teologia tornou-se psicologia.

            Por fim, no marxismo, o homem social, o homem econômico, é a única realidade. A transcendência, o além e a vida eterna, bem como a realidade divina não são preocupações dignas. É o aqui e o agora que importam. A utopia humana precisa ser construída pelo e para o homem. E a religião pode ajudar se deixarem de lado sua mensagem transcendente e se tornarem instrumentos de transformação social. O Evangelho Social, a Teologia da Libertação e a Teologia da Missão Integral são frutos dessa rendição da teologia. A teologia tornou-se sociologia.

            Bons teólogos devem saber fugir dos enganos filosóficos e teológicos para poder prestar um serviço significativo ao Reino de Deus. É o que mostra o testemunho de John Piper:

            O que vi no sistema educacional teológico e na vida da igreja estatal na Alemanha confirmou muito daquilo que eu não pretendia me tornar. Ali estavam eruditos proeminentes, sobre os quais todos aqueles que estavam na vanguarda americana expressavam admiração e prazer, ensinando de uma maneira que era exegeticamente intransferível, insubmissa às Escrituras e indiferente à vida da Igreja. Fiquei desiludido com tal erudição. Parecia norteada pela necessidade de aprovação dos nobres. Usava jargões técnicos que somente os de dentro  poderiam entender e que frequentemente ocultavam ambiguidade. (…) Havia o uso de habilidades linguísticas para criar imprecisão e ocultar superficialidade.[3]

POR QUE CONHECER FILOSOFIA?

            Vou continuar sempre insistindo na necessidade de conhecermos a filosofia. Não para nos rendermos a ela e ter nossa teologia verdadeira, filha da revelação divina, escravizada a pressupostos humanos. Mas para que entendamos para onde tem caminhado um mundo que trocou os mananciais das águas vivas por cisternas rotas que não retêm a água (Jeremias 2.13).

            Conhecer os pontos divergentes e convergentes entre as filosofias e a teologia pode nos ajudar a tocar os corações onde precisam ser tocados e a expor os enganos que prendem as pessoas pela sua mente. Nosso trabalho também é destruir “raciocínios enganosos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2 Co 10.5). Não conseguiremos ajudar as pessoas com seus raciocínios enganosos se não formos capazes de identificar tais enganos. A verdade revelada liberta das mentiras engendradas pelas vãs filosofias.

            Por fim, estamos em um mundo que vai se tornando cada vez mais dominado pela academia. E nem sempre essa academia é salutar. Ela foi dominada por ideologias várias e estranhas que mergulham os homens no engano e na destruição. Nosso dever como teólogos verdadeiros e expor falsas teologias e falsas filosofias. Isso é amor à verdade e amor aos que nem sempre são aptos para discernir esses sutis enganos.

            Termino com as palavras do renomado C.S. Lewis, alguém com uma mente extraordinária, um conhecimento filosófico excepcional e um reconhecimento de que a compreensão da filosofia é essencial para quem quer discernir a boa da má:

“Ser ignorante e inocente nesses dias – tornando-se incapaz de confrontar os inimigos em seu próprio território – seria como lançar ao chão nossas armas e trair nossos irmãos de pouco formação, que não possuem, abaixo de  Deus, nenhuma defesa, exceto nós, contra os ataques intelectuais dos descrentes. A boa filosofia tem de existir, se não houvesse outra razão, porque a má filosofia precisa ser contestada”


[1] SCHAEFFER, Francis. O Deus que se revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 41

[2] Op. Cit. p. 42

[3] PIPER, John e CARSON, D.A. O pastor como mestre e o mestre como pastor. São José dos Campos: Fiel, 2011, pp. 48, 49

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