Centro de Ensino Teológico Saber e Fé

A VERDADE NÃO É POLÍTICA

Leis são humanas, a Palavra é imutável, embora, talvez para muitos, o único poder real seja o poder político. Decretos governamentais alteram de forma profunda e ampla a vida em sociedade. Quando uma lei é estabelecida, não só as pessoas são obrigadas a obedecê-la, também aquilo passa a ser entendido como padrão normal de comportamento. De alguma forma ela altera a realidade mental e prática das pessoas.

            Esse sempre foi o pensamento daqueles que defendem que “o direito é força”. Não há certo ou errado, apenas imposição. Todavia, há uma Lei acima das leis e uma realidade além da realidade manipulada nas mentes individuais e na sociedade.

A lei do SENHOR é perfeita e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e alumia os olhos. O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente. (Salmo 7.9)

            A percepção da realidade vai sendo cada vez mais reduzida à realidade social e todos os aspectos da vida tendem a ser reduzidas à esfera política. O secularismo faz com a vida se torne apenas alimento, a sobrevivência, o imediato. O ser humano não é mais visto como um ser em relação com a eternidade, em relação com um Deus pessoal e transcendente. O homem animal político como definiu Aristóteles. Todavia, o problema é que ele vai sendo visto cada vez mais, somente como um animal político e mais nada.

Vivemos em tempos muito diferentes com relação às leis. A cosmovisão bíblica foi cada vez mais se perdendo na sociedade e agora a lei é feita com outros olhos. Aos poucos o que era errado vira certo e o que era certo vira errado em uma inversão de valores semelhante aquela denunciada pelo profeta Isaías (Isaías 5.20) A não ser que o poder legislativo fosse exercido por cristãos bíblicos, o surgimento de conceitos legais e mesmo legislações em choque aberto com os preceitos de Deus era inevitável. Aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, drogas, pedofilia (?), etc. São pontos nos quais o caos moral não apenas se estabelece, mas se estabelece legalmente e os discordantes se tornam no mínimo contraventores, no máximo criminosos em uma inversão de valores inimaginável há algumas décadas.

Como nós cristãos devemos enxergar isso? Que devemos fazer? Devemos fazer algo? Qual nossa responsabilidade.

ISSO NÃO É NOVO

            Isso não é novo nem histórica, nem geograficamente falando. Na verdade, leis em conflito com a revelação divina não são nenhuma novidade.

            Na história nem sempre o Estado foi amigo dos cristãos. Antes do Imperador Constantino (313 d.C.) não apenas os cristãos eram perseguidos, mas práticas como infanticídio, aborto, homossexualidade e a promiscuidade eram normais. O evangelho mudou o quadro. O processo no qual o cristianismo alterou a cultura e consequentemente as leis foi bastante longo. Diferente do islamismo onde, à semelhança da lei judaica, estado e religião nasceram ligados, o cristianismo abriu seu caminho mais lentamente.

            Não podemos esquecer que mesmo quando o “cristianismo dominou”, atitudes como: ler a Bíblia na língua do povo ou discordar do ramo de cristianismo dominante foi considerado ilegal, gerando mesmo perseguição, prisões e morte. Eram as leis humanas contra a lei divina.

            Com a separação entre Igreja e Estado era inevitável que começassem a surgir leis que se chocavam contras as Escrituras. Coisas como divórcio, prostituição, adultério e outras práticas foram deixando de ser ilegais para ser apenas erradas. A cultura foi perdendo cada vez mais sua influência cristã e como consequência as leis foram se tornando cada vez mais distantes daquilo que Deus revelou em sua Palavra

            Isso sem falar em países não cristãos ou regiões completamente secularizadas como a Europa, onde pregar o evangelho abertamente já constitui um ato ilegal. Em diversos lugares do mundo o cristianismo não desfruta da liberdade que conhecemos no Brasil.

            Na América, por muito tempo uma visão cristã de mundo permitiu leis cristãs. No entanto, gradativamente, isso foi mudando e hoje existe um confronto direto. A luta é acirrada e os ataques aos fundamentos morais do cristianismo vão se manifestando. O que fazer?

PODEMOS INFLUENCIAR

            Primeiramente, ser cidadãos do céu (Filipenses 3.20) não significa que não somos cidadão da terra. Temos dupla cidadania. E nosso papel aqui é influenciar para o bem (Mt 5.13, 14). Vivemos em uma democracia e isso quer dizer que nossa palavra tem peso. Ninguém pode nos calar por sermos cristãos. As leis não podem nos atropelar. Isso o apóstolo Paulo mostrou muito bem (Atos 16.35-39).

            Lutar contra leis que perverterão nossos filhos e netos, que perverterão nossa cultura e imporão visões de mundo e comportamentos inadequados é uma possibilidade para nós e, portanto, torna-se uma obrigação. Como essa luta se dará, como será esse engajamento, cabe-nos buscar os melhores caminhos.

            Mesmo que estejamos diante de tentativas abertas de destruição dos valores morais eternos por meios de leis iniquas, nós, como Igreja de Jesus Cristo, somos colunas e sustentáculo das verdades reveladas por Deus (1 Tm 3.15). Em muitos lugares o posicionamento de líderes e cristãos contra leis que procuram forçar ideologia de gênero ou impedir a liberdade religiosa e de expressão foi suficiente para fazer o governo recuar. Passividade não é virtude, ingenuidade não é valor, omissão é pecado (Tg 4.17)

            Qual será o resultado da luta cristã, não temos como saber. Só sabemos que temos que lutar. “O porvir cabe a Deus e a nós, mas numa dada ordem.”, escreveu Sertillanges.[1]

PODEMOS VIR A SOFRER

            Não podemos abrir mão da possibilidade de perseguição e opressão. Estamos dispostos? Nossos irmãos, em muitos lugares, sabem o que é viver em um país onde a cultura e a lei não é apenas contrária à revelação divina. Ela é hostil a quem professa o nome de Jesus. China, Coreia, Cuba, países islâmicos, países secularizados. Em alguns desses lugares os cristãos estavam tão adormecidas que nem perceberam quando as mudanças gradativas aconteceram, até que o ambiente cultural se transformou em lei e a perseguição, discreta ou aberta, foi estabelecida.

            Quando essa situação ocorre, só nos resta sofrer. “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29) afirmaram os apóstolos.  Nenhum governo tem poder para mudar a lei eterna de Deus. Nenhuma legislação altera a moral divina presente na própria estrutura do universo. Muitas vezes, a única opção e resistir, mesmo que o preço não seja pequeno. A disposição para se opor e sofrer por isso precisa existir no coração de cada cristão. Muitos deles foram parar nos campos de concentração de Hitler.

            Se não resistirmos ao politicamente correto, essa mordaça intelectual que tem impedido muitos cristãos de se posicionar, como estaremos prontos para ameaças maiores? É preciso sempre estar disposto a perder, a sofrer ou mesmo a morrer se for preciso: Aquele que tem ouvidos ouça: Se alguém há de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém há de ser morto à espada, morto à espada haverá de ser. Aqui estão a perseverança e a fidelidade dos santos. (Apocalipse 13.9, 10).

NINGUÉM PODERÁ ALTERAR AS VERDADES ETERNAS DE DEUS

            Precisamos ter em mente que leis humanas não alteram leis divinas. A liberação do divórcio, no passado, não tornou o divórcio aceitável. A legalização do aborto não o fará deixar de ser um cruel infanticídio aos olhos de Deus. “Casamento gay” não mudará o que é uma família, apenas instituirá uma abominação aos olhos do Altíssimo. Mesmo se a pedofilia for legalizada, isso não tornará esse ato menos reprovável. O que é , é.

Nenhuma ação política deste mundo tem o poder de alterar aquilo que saiu da boca de Deus. O maior perigo é nós como cristãos deixarmos de nos posicionar e aceitarmos passiva ou ativamente comportamentos culturais ou legais como se fossem normais. Morar em Sodoma e Gomorra pode até ser inevitável. Concordar com suas práticas não.

Ser Igreja sempre significou ser uma contracultura, muitas vezes pagando um preço bem caro por isso. É necessário que a Igreja lute contra tudo o que é contrário ao Senhor. Muitas vezes ela terá êxito, outras vezes não. Todavia, independente do seu êxito, ela deve permanecer firmada naquilo que o Senhor disse, pois sua palavra é a verdade (João 17.17)

Tudo é móvel, tudo flui, tudo se altera. Mas a Palavra do nosso Deus permanece eternamente. “Passarão os céus e a terra, mas minha palavra não passará” (Mateus 24.35)


[1] SERTILLANGES, A. –D. A vida intelectual. São Paulo: É realizações, 2010, p. 9

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