Centro de Ensino Teológico Saber e Fé
Felicidade

Felicidade ou maturidade? O que buscar?

A tão sonhada felicidade

A premissa de que nascemos para ser felizes está profundamente arraigada na mentalidade, na cultura popular e até mesmo na religião. Com efeito, nesta última esfera, a ideia de que o objetivo máximo da existência humana é a conquista da felicidade parece ser um axioma irrevogável. Desde a mais tenra idade somos levados pelos meios de comunicação, pela educação em casa, pela educação escolar e pela cultura em geral, a crer que a felicidade é um objeto externo a nós e que precisamos lutar para conquistá-la. Se preciso for, devemos sacrificar qualquer coisa, pessoa ou valor para alcançá-la, afinal, “é a nossa felicidade que está em jogo”, diz a ética comum.

De fato, ser feliz é um objeto de desejo para os seres humanos. Mais ainda, é o sumo objeto de desejo. Contudo, é pertinente nos questionarmos se o homem, em um cenário pós-Queda como o que vivemos, realmente nasce para ser feliz. Tal questionamento é sobretudo relevante frente dois fatos inquestionáveis: o fato de que a felicidade, em sua mais plena forma, pressupõe a ausência de todo e qualquer mal e o de que o mal existe e continuará existindo1. Portanto, é difícil crer que nascemos para ser felizes e que o sumo objetivo do homem é buscar esta felicidade em um cenário em que ela simplesmente não é possível em sua forma plena.

Outrossim, ao que parece, o conceito comum de felicidade abriga a ideia da satisfação de vontades. Desse modo, uma pessoa pode se considerar feliz na medida em que suas vontades, nas mais variadas esferas, são satisfeitas. Se uma pessoa tem todas as suas vontades supridas no casamento, no trabalho, na vida escolar, nos relacionamentos interpessoais, nos empreendimentos pessoais, nos hobbies que porventura venha a adotar etc., então ela pode se considerar feliz. Mas caso sua vontade não seja satisfeita em uma dessas áreas, ela prontamente assumirá que algo está fora de ordem e que tal desordem deve ser restaurada: “Preciso buscar minha felicidade”, dirá ela, certamente. Entretanto, nossas vontades devem realmente ser satisfeitas? Nossas vontades sequer são puras e idôneas para que a harmonia na existência consista na satisfação delas?

Como vemos e conforme provaremos, a sabedoria divina nos leva a pôr em cheque a filosofia implicitamente hedonista que adotamos.

A Bíblia mostra que a vontade do homem não é boa

A Bíblia, de fato, desmente com clareza a filosofia de que nascemos para ser felizes. Em primeiro lugar, a Palavra de Deus afirma que as vontades dos homens não são puras, elas pendem para o mal. O texto bíblico de Tiago 4.1-3 diz:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres.”

O que Tiago está dizendo aqui, translucidamente, é que nossa vontade natural é má, pois ela é expressão de uma natureza má; com efeito, essa vontade má é a causa dos desarranjos e contendas interpessoais. Paulo, aos Romanos, também fortalece essa afirmação:

“Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que a Lei é boa. Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá- lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim”. (Rm 7.15-21)

A plenitude da história da revelação nos mostra que o homem, após ter pecado, tornou-se escravo de suas paixões. Desse modo, as vontades naturais do ser humano são más e, sendo más, como poderia o seu cumprimento ser a resposta para a felicidade humana? É claro que se o homem é impulsionado por uma natureza má, suas vontades penderão sempre para o mal e o possível cumprimento delas apenas seria causa de mais infelicidade. Evidentemente, alguém poderia argumentar que o “homem novo”, o homem regenerado, criado segundo Deus, tem uma nova natureza e, assim, uma nova vontade, que pende para o bem e busca a glória de Deus. Entretanto, a natureza corrupta do homem não é erradicada em seu “novo nascimento” e, destarte, permanece exercendo sua influência na volição do ser humano: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim” (Rm 7.21). Logo, é claro que se o conceito de felicidade está atrelado ao cumprimento e satisfação de nossas vontades, e nossas vontades naturais são corruptas, segue-se que a felicidade, nos termos em que a concebemos, não é possível de ser adquirida.

A Bíblia mostra a existência do mal

Outro fato claramente exposto na Escritura é o da existência fatídica do mal. Tal fato é tão visceralmente comprovado pela experiência humana e exemplificado na Escritura que qualquer tentativa de provarmos a existência do mal parecerá um esforço inútil e redundante. Mesmo assim, os textos bíblicos nos apresentam um testemunho tão expressivo da tristeza, da angústia e da dificuldade humanas que sua menção é digna de ser feita. Jo 16.33; 2Co 1.3-8; 2.4; Rm 8.18,35

Jesus disse àqueles que o seguem: “Neste mundo vocês terão aflições…” (Jo 16.33). Longe de ser uma afirmação hipotética, esta frase subentende o importante fato de que, enquanto a Nova Criação não for implantada, o sofrimento estará presente em nossa realidade. Paulo, dirigindo-se aos romanos, diz: “… também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Rm 5.3,4). E Tiago, escrevendo a cristãos dispersos e perseguidos, golpeia as consciências de seus leitores com as seguintes palavras:

“Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma.” (Tg 1.2-4)

É incrível como a Bíblia, sendo um livro absolutamente verdadeiro e atual, é capaz de não somente comprovar a experiência humana como imprimir significado a ela. Todos sofremos e sabemos disso. Entretanto, a Escritura, como palavra inspirada de Deus, comprova este fato e o explica.

A experiência humana nesta realidade é permeada pela existência do mal. Sofremos angústias, tristezas, decepções, luto, dores, doenças, depressão e agonia nesta vida. Em meio aos “oasis” de paz e alegria que o Senhor, tão bondosamente, fornece tanto a seu povo como aos ímpios (At 14.17), o mal se faz presente na experiência humana e desacredita qualquer possibilidade de falarmos em uma felicidade real, plena, e em seu sentido perfeito, nesta existência. Deste modo, fica difícil crer na filosofia corrente de que nascemos para ser felizes. E se não nascemos para encontrar nossa felicidade aqui, nesta existência, podemos imaginar um cenário em que a felicidade seja realmente um fato e esteja presente em totalidade?

Nesta terra, somos peregrinos

A Bíblia nos mostra que a grande esperança daqueles que confiam em Deus e o seguem é, certamente, a “felicidade escatológica”. Diz a Escritura:

Todos estes [pessoas que viveram suas vidas confiando em Deus e em suas promessas] viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade (Hb 11.13-16).

Repare como a Palavra de Deus desvenda uma verdade crucial para que compreendamos a natureza da experiência humana nesta terra. A Bíblia diz que somos peregrinos e estrangeiros nesta terra. Isso aponta para o fato de que a experiência humana nesta existência não finda com a morte biológica. Outrossim, o mesmo texto mostra que aqueles que creem em Deus e vivem segundo sua crença devem esperar uma realidade ulterior infinitamente melhor. Como sublinha o texto joanino:

“Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: ‘Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou’. Aquele que estava assentado no trono disse: ‘Estou fazendo novas todas as coisas!'” (Ap 21.3-5a).

Desta forma, fica claro que a cosmovisão bíblica enxerga a experiência humana nesta terra como embuída em provações e dissabores. Nesta existência experimentaremos largamente o mal e isso, é lógico, nega o pensamento comum de que a felicidade está presente “em algum lugar” nesta vida e que o esforço humano deve ser o de encontrar essa suposta felicidade.

Contudo, se a felicidade, em sua forma plena, não está disponível aos homens nesta vida, existe algum chamado divino dirigido ao homem para que ele caminhe em direção a este objetivo?

Fomos chamado não à felicidade, mas à maturidade!

Deus conclama o homem à maturidade, não à felicidade. O Senhor quer que o homem amadureça e alcance um estado no qual a imagem de Deus nele se torne cada vez mais aparente. Obviamente que isso só se torna possível ao povo de Deus, que recebeu uma nova natureza capaz de agradá-lo e, mediante a poderosa persuasão do Espírito Santo, percorre o caminho da santificação. Mesmo assim, a obrigação legal de que o homem deve refletir o caráter de seu criador permanece válida e proporcionará condenação aos que não crerem e não viverem suas vidas para a glória de Deus.

Veja o que diz o apóstolo Pedro:

“Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado”. (1Pe 1.6,7) 

Ademais, Paulo diz:

[…] pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2Co 4.17,18).

A Sagrada Escritura nos mostra que o mal é uma realidade, não ontológica, mas instrumental, que serve a propósitos específicos e distintos quando aplicado sobre o povo de Deus e quando aplicado aos ímpios. E, por textos como os que foram aqui incorporados, também mostra que este mal a que o povo de Deus é submetido é absolutamente necessário para o aperfeiçoamento de nosso caráter e para a restauração da imagem de Deus em nós, que somos seu povo, que confiamos Nele e em sua promessa. Conforme apontado no outro artigo: “Todo mal vem do pecado?“, Deus decreta o que é mal aos nossos olhos e o transforma em bem. O fruto do Espírito só é desenvolvido em nós nas situações adversas. Aprendemos a amar convivendo com pessoas de quem pouco gostamos. Aprendemos a ter domínio próprio em situações nas quais nossa impulsividade e natureza corrupta são postas à prova. Desenvolvemos a longanimidade precisamente nas tribulações e angústias, e assim por diante. Em outras palavras, o caráter de Cristo é restaurado em nós também pela instrumentalidade do mal. Daí, não é difícil estabelecer que não somos chamados à sermos felizes nesta vida, mas a sermos maduros e completos: “Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé produz a perseverança; e a perseverança tenha a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma” (Tg 1.2-4).

Para fazermos justiça ao que a Bíblia diz, devemos, sim, pontuar que Deus nos proporciona muitas alegrias nesta vida. Ele faz isso de uma maneira graciosa e geral para com aqueles que não creem Nele e que vivem em estado de rebelião (Mt 5.45; At 14.17), bem como opera esta alegria de forma abundante e especialmente graciosa nos corações daqueles são seu povo. Porém, é notório que este deleite proporcionado a nós pelo Senhor não advém das circunstâncias exteriores, da harmonia e arranjo da contingência da vida, e tampouco do cumprimento de nossas vontades, ainda contaminadas pelo pecado. Ao contrário, o gozo e a felicidade por que passam o cristão são oriundos de uma antecipação graciosa da presença de Deus por meio da habitação de seu Espírito em nós, bem como de nossa confiança e apropriação de suas promessas, também soberanamente possibilitadas pela operação do mesmo Espírito.

Em resumo, o Senhor, criador e sustentador da história, graciosamente fornece e proporciona alegria aos homens. Ele também promove uma alegria sobrenatural e indizível aos seus filhos, com efeito, a alegria de sua presença. Entretanto, enquanto desfrutarmos da experiência de vida “neste tabernáculo”, sofreremos o mal e não poderemos falar em uma felicidade em seu sentido mais profundo.

Deus não nos chamou para sermos felizes. Nossa missão e objetivo não deve ser o de “buscar a felicidade”, devo repetir. Antes, devemos nos despir do homem velho e nos revestir do novo, o qual está sendo renovado à imagem do seu Criador (Cl 3.9-10). Paulo diz que fomos regenerados em Cristo para as boas obras, as quais nos foram preparadas de antemão (Ef 2.10). O apelo bíblico, portanto, é que sigamos nesta vida agradecendo a Deus tanto pelos momentos de alegria quanto pela dor e tristeza que sentimos, lembrando-nos de que nossa esperança não está em nada que esta realidade possa nos oferecer. Vivamos, então, não “buscando felicidade”, mas intrepidez e firmeza de caráter para suportarmos o mal. A felicidade não é “felicidade” senão um consciente e biblicamente orientado desfruto da maturidade!


Notas
1Cientes da revelação divina na Escritura sabemos que o mal não existirá indefinidamente (Ap 21.4). A afirmação restrita de que o mal continuará a existir serve a propósitos retóricos, a fim de que a argumentação siga um curso indutivo.

Comentário