Introdução – Fazendo discípulos de todas as nações

História de missões é a história da expansão da Igreja. Vivemos em um mundo onde o cristianismo é a religião dominante e, mesmo onde não é considerada assim, sua presença se faz sentir de alguma forma. Este fato nos obriga a investigar os caminhos que levaram o cristianismo a tais proporções universais. Como vimos, a Igreja já nasceu missionária e, embora somente nos últimos três séculos tenha atingido a maior parte de seus limites geográficos atuais, desde os seus primórdios, porém, sua expansão se fez sentir.

Como dissemos, se tomarmos os textos dos evangelhos que narram os acontecimentos após a ressurreição, juntamente com o primeiro capítulo do livro de Atos dos Apóstolos, veremos que a Igreja nasceu missionária. Não nasceu como um tímido grupo de adoradores exóticos, mas, sim, como um organismo consciente do dever de levar o evangelho a toda criatura. Depois de vencidas as barreiras culturais, foi exatamente isso que aconteceu. Embora, de algum modo, tenha parecido difícil aos apóstolos captarem, em toda a sua inteireza, a Grande Comissão, a verdade é que, uma vez isso feito, eles foram para o mundo. A afirmação de Pedro, em Atos 4.12, não implicava apenas o exclusivismo do evangelho. Carregava, também, em si, o peso da responsabilidade de fazer o nome de Jesus conhecido entre todas as nações.

Às vezes mais tímida, às vezes mais ousada, a Igreja foi abrindo seu caminho no mundo, em alguns momentos, derramando seu sangue; em outros, infelizmente, derramando o sangue de outros. Claro que só no primeiro caso houve aprovação divina. De qualquer forma, a mentalidade cristã era uma mentalidade missionária.

Conhecer minuciosamente cada uma das muitas fases de expansão é tarefa por demais difícil. Entretanto, podemos conhecer, ao menos, um pouco desse processo que transformou aquele pequeno grupo de doze homens na mais poderosa força da história.

Lacunas

Ao estudarmos o processo de evangelização mundial, temos de tomar consciência das grandes lacunas que iremos encontrar. Este trabalho, em si, tem suas limitações, não é exaustivo, de forma alguma. Funciona mais como um mapa a indicar uma enorme região a ser percorrida. Mesmo assim, será eficaz em informar a expansão do evangelho no mundo.

Além dessa lacuna, gostaríamos de lembrar que o nosso estudo da história de missões é sempre exposto dentro de uma visão ocidental, como se esse fosse o único ramo do cristianismo. O cristianismo ortodoxo, os diversos ramos do cristianismo oriental e, ainda, a Igreja Copta com outros grupos nem sempre adquirem a importância merecida. Um claro exemplo que veremos mais à frente é dos nestorianos, um grupo declarado herético por Roma que dominou o cenário oriental por vários séculos. Quase nada se comentou a seu respeito. E esse é só um exemplo.

O envolvimento dos “anônimos”

A nossa historiografia, apesar de toda tentativa de mudança, se baseia muito na máxima de Thomas Carlyle, que diz: “A história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens”. De um jeito ou de outro, o impulso dado por certos indivíduos será apontado como sendo a causa da expansão cristã. Em sua obra, Até os confins da terra, Ruth A. Tucker escreve uma história das missões desde os dias dos apóstolos até os tempos atuais, utilizando-se de biografia. Isso demonstra a tendência geral.

Ainda que assim aconteça, não podemos esquecer os milhões de anônimos que, de um jeito ou de outro, contribuíram para o avanço do cristianismo. Seus nomes não figuram nos registros históricos, entretanto, sem eles, nada teria acontecido.

Podemos tomar como exemplo uma passagem do livro de Atos. A Igreja em Antioquia, na Síria, foi uma das mais importantes no livro de Atos porque, a partir dela, o apóstolo Paulo e sua equipe missionária se lançam na evangelização da Ásia Menor e da Europa (At 13). Também se destaca nos escritos bíblicos, por ser a primeira Igreja predominantemente gentia. Mesmo na história da Igreja, sua importância, durante muito tempo, era igual à da igreja de Jerusalém, de Alexandria e, mesmo, de Roma. E, dentro disso, destacamos que ela, a Igreja, não teve uma origem apostólica. Sua fundação foi feita por anônimos.

“E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns varões de Chipre e de Cirene, os quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor. E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia, o qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou e exortou a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor” (At 11.19-23).

É fato notável que uma obra com essa importância não tenha sido começada por algum líder conhecido. Como vimos, até mesmo a igreja em Roma pode apresentar essa mesma característica. Esse fato se torna relevante neste estudo sobre a expansão do cristianismo.

Nessa primeira parte, abordaremos o tema sobre história de missões desde o período apostólico até as grandes missões católicas dos séculos 16 e 17. Apesar da importância desse período, veremos que foram os últimos três séculos posteriores que transformaram o cristianismo em uma religião universal. A ação missionária protestante, ainda que tardia, foi essencial para que o evangelho fosse proclamado em toda a terra.