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Tradição

Tradição – regras que nos afastam de Deus?

A saudável vivência cristã desenvolve-se sempre com o ideal do equilíbrio, da temperança e da boa consciência na verdadeira fé. O objetivo da práxis religiosa é viver o evangelho segundo nos foi apresentado por Cristo e pelos apóstolos, conforme registrado sem erros na Sagrada Escritura. Contudo, dada a corrupção da natureza humana, é difícil viver o evangelho e nele amadurecer, sem acrescentar a ele elementos externos ou modificar sua substância segundo uma ótica particular, segundo a tradição. Para nós, discípulos de Cristo, dura coisa é mantermos nossa vivência baseada puramente na Escritura, renunciando a regras impostas pela tradição, rechaçando mandamentos infundados, e expelindo das doutrinas eternas conceitos forjados pela mente humana. Mesmo assim, com toda essa dificuldade trazida por nós mesmos, é exatamente isso o que Deus requer de nós: que vivamos Seu evangelho de forma pura, exatamente como Ele o planejou e no-lo apresentou por sua graça mediante sua Palavra. Não podemos estar aquém do que diz a Escritura, mas igualmente perigoso é ir além de sua mensagem simples. Diante disso, seguir-se-á um breve comentário sobre o texto de Mateus 15.1-9, através do qual provaremos o que foi dito.

A perícope se inicia dizendo que alguns fariseus e mestres da Lei, supostamente os que deveriam compreender o evangelho 1, chegaram a Jesus e, inquirindo-o, acusaram seus discípulos de transgredir a tradição dos líderes religiosos. A resposta do Mestre, por sua vez, entrevê uma afirmação contundente. Embora Jesus tenha respondido aos seus inquiridores com uma pergunta: “E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês?” (v. 3). Ele, nas entrelinhas, estava afirmando: “Meus discípulos não violam absolutamente nada, pois o cânon de vocês é sua própria tradição (por inferência, vocês são sua própria medida!); vocês, por outro lado, transgridem mandamentos divinos”.2 E, após fornecer um exemplo de como se dava essa transgressão dos fariseus e escribas, o Senhor acrescenta: “Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens” (v. 9).

Com as afirmações de Jesus no referido debate com os fariseus e mestres da Lei, podemos deduzir três valiosos pontos que enunciam lições para a nossa vida cristã e para a renovação de nossos conceitos (Rm 12.2).

Não usar regras humanas em forma de religião

O primeiro deles é que devemos nos precaver contra o impulso natural de criar uma “religião” à parte da religião verdadeira e paralelamente a ela, com nossas próprias regras, protocolos, achismos e costumes. Essa tendência é natural, pois somos seres pecaminosos e todos somos suscetíveis a pecar dessa maneira. Nossa principal tendência é fazer nossa própria vontade. Em Gênesis, vemos o homem comendo o fruto que o proveria conhecimento do bem e do mal e, assim, o homem poderia adquirir independência (pseudo-independência) em relação a Deus e sua tutoria amorosa. Portanto, a principal inclinação pecaminosa do ser humano é viver à sua maneira. Evidentemente, esse impulso horrível ecoa nas dimensões de sua religião. Não nos satisfazemos com a religião fornecida pelo Senhor; gostamos de acrescentar detalhes, regras e protocolos de nossa autoria. Lutemos, pois, contra este impulso da “carne”, emprestando a linguagem paulina.

Não usar regras humanas em forma de tradição

O segundo ponto é que os fariseus e escribas, que adicionavam regras próprias (“tradição”) ao santo evangelho, acabavam adorando a Deus em vão (v. 9). E o fato de existir uma maneira errada de adorar a Deus indica a existência de uma maneira certa. Adorar a Deus de qualquer jeito que não seja o que Ele estipulou é um exercício de futilidade. Tal forma de adoração, embora aparente piedade aos olhos humanos, esconde uma idolatria terrível, que é o culto ao ego e uma rejeição deliberada da providência e do cuidado divinos (leia: Quer pagar quanto?). Paulo, escrevendo aos de Colossos, disse:

“[…] vocês se submetem a regras: ‘Não manuseie!’, ‘Não prove!’, ‘Não toque!’? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne” (Cl 2.20-23).

Fica claro, então, que a adição de regras humanas à práxis religiosa não somente deixa de suscitar qualquer efeito benéfico para a pessoa, como também se mostra maléfica. Regras humanas, ainda que camufladas sob o nome de “tradição” ou de “costumes” ou de qualquer outro, afastam Deus de quem as pratica.

Não usar regras humanas para caminhada/adoração/amizade com Deus

O terceiro e último ponto, extraído como lição, é o de que a criação de regras humanas para a caminhada/adoração/amizade com Deus se constitui como uma deliberada rejeição à pessoa de Cristo e à sua obra expiatória. A Escritura afirma translucidamente que Cristo é o único caminho para Deus. O evangelho segundo João relata a afirmação de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14.6). De modo enfático, a Bíblia também mostra que a obra expiatória de Cristo é a única oferta legítima para a religião verdadeira e para o restabelecimento da amizade com Deus: “[…] Deus, em Cristo estava reconciliando consigo o mundo[…]” (2Co 5.19). Isto ilustra as consequências nefastas para aqueles que, mediante suas próprias tradições, renunciam a Cristo como a única religião verdadeira (leia: Todos os caminhos levam a Deus?), preterindo, menosprezando ou mesmo desprezando a perfeita obra da cruz. Fato: ao adotarmos regras humanas para adorar a Deus, rejeitamos a única obra que poderia nos aproximar da Divindade.

Conclusão

Vemos, portanto, que a vivência do discipulado, para o cristão, não é fácil nem automática. Porém, devemos nos esforçar para mantermos em perspectiva o evangelho como ele nos foi apresentado, sem tirar nada dele, e sem acrescentar nada a ele. O imperativo do apóstolo João é que andemos na luz (1Jo 1.7) e, com efeito, a luz do Senhor encontra-se plenamente expressa em Sua Palavra (Sl 119.105). O esforço do cristão, assim, é o de, continuamente, rejeitar sua própria tendência em criar, com suas regras e particular tradição, uma religião paralela à proposta pelo Senhor. Quem constrói suas próprias regras para se aproximar de Deus o rejeita e o afasta de si; expele o Filho e sua obra e, ao invés de encontrar consolo no íntimo contato com Deus, caminha para longe de sua presença.


 

Notas
1 Embora o “evangelho” popularmente designe os ensinamentos do Novo Testamento, na verdade, ele existe desde o Antigo (num sentido mais estrito ainda, existe desde a eternidade), visto que o Novo Testamento não trouxe um conteúdo “inédito” aos homens mais do que consolidou, concluiu, explicou e provou o conteúdo do Antigo. Isto explica o motivo de o escritor de Hebreus dizer que as boas novas foram também pregadas a “eles”, os israelitas do Antigo Testamento (Hb 4.2).

2 Neste caso em particular, Jesus estava se referindo à transgressão de um mandamento específico. Contudo, observando o Novo Testamento em sua totalidade, vemos que os adeptos da seita farisaica transgrediam incontáveis mandamentos, à semelhança de qualquer outra pessoa. O que os distinguia e os tornava arquétipos de hipocrisia e injustiça era o fato de não reconhecerem que eram pecadores.

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