Introdução – Justificação da Apologética

Pode parecer estranho, mas seguramente necessitamos fazer uma apologia da apologética. Sua aceitação não é unânime. Há quem a considere inútil e até mesmo prejudicial. Muitas objeções foram levantadas ao longo do tempo e para muitos ela não passa de mera intelectualização da fé.

Apesar de sempre ter havido pessoas de grande capacidade intelectual que usaram de argumentações racionais sólidas na defesa do Evangelho, suas ações geralmente permaneceram na periferia da Igreja. A grande maioria dos cristãos sempre olhou com desconfiança para as tentativas de justificar as verdades bíblicas com argumentos lógicos. Em nome da onipotência da prática, reflexões aprofundadas foram deixadas de lado. De modo sutil ou mesmo agressivo, o anti-intelectualismo firmou bases no arraial cristão. E isso não aconteceu sem uma razão. Alguns motivos levaram grandes líderes, mesmo bons líderes dentro do cristianismo, a rejeitarem alguma conexão entre a fé e a razão.

Em primeiro lugar, o caráter anticristão assumido pela classe pensante. Desde o iluminismo, a maior parte daqueles que valorizaram a razão zombou da fé. Ser culto, inteligente e racional se tornou sinônimo de arreligioso, ou, quando não, ao menos, irreligioso. Se a história do pensamento cristão foi a tentativa de conciliar fé e razão, quando chegamos em certo ponto da história, os defensores da razão lançaram fora qualquer possibilidade de conciliar esta com a fé. Ignorando séculos de progresso filosófico e científico resultantes dos esforços de pensadores cristãos, o Ocidente cuspiu no prato que comeu e igualou fé com ignorância. Como resultado, os cristãos passaram a desconfiar não apenas dos pensadores e intelectuais, mas do próprio pensamento lógico e do intelecto.

Em segundo lugar, a teologia liberal, com sua erudição e ceticismo, não conciliou fé e razão como pretendia fazer. Antes, matou a fé com um falso racionalismo. Se durante a Idade Média em alguns momentos a fé sufocou a razão, da Idade Moderna em diante a razão estrangulou a fé. E os teólogos liberais contribuíram largamente para isso. Eles foram eruditos que negaram os fundamentos da fé diante dos novos pressupostos da ciência. Transformaram o evangelho em outra coisa bem diferente do que era. A reação fundamentalista percebeu isso claramente e fez imenso esforço para deter esse movimento, que era muito mais do que uma heresia distorcendo alguns pontos da revelação bíblica. Era um cataclismo tentando extinguir a fé bíblica. Embora os fundamentalistas fossem bem preparados intelectualmente, alguns não tão preparados quanto eles julgaram que o problema era o conhecimento dos teólogos liberais e não a distorção do conhecimento realizado por eles. Como resultado, tudo o que tivesse aparência de razão, racionalidade ou intelectualidade passou a ser visto também com desconfiança.

E, por fim, nem sempre aqueles que se dedicaram e se aplicaram a conhecer e estudar, foram exemplos morais e espirituais. Muitos deles se tornaram catedráticos secos, como os escribas que Jesus repreendeu. Seu conhecimento, longe de tornar sua vida espiritual mais vigorosa, os tornou espiritualmente vazios. Também não conseguiram unir de modo satisfatório os aspectos morais, espirituais e intelectuais da vida. Isso fez com que aqueles que tiveram uma vida espiritual vigorosa desprezassem o conhecimento, julgando-o mais um empecilho do que um auxílio.

O resultado foi o anti-intelectualismo evangélico e com ele um desprezo geral pela apologética. Mesmo que qualquer pessoa envolvida com o ministério cristão obrigatoriamente vá lançar mão da apologética de um jeito ou outro, seu conceito geral sobre ela geralmente será negativo. A busca por um aprofundamento das questões que envolvem fé, razão, ciência, filosofia e até teologia será criticado sutil ou abertamente.

Se não fosse todo esse processo histórico, não seria necessário escrever algo com a intenção de justificar a apologética. Não fosse assim, ações dessa natureza seriam tão naturais como livros de teologia geral ou livros devocionais sobre oração. Entretanto, isso se faz necessário diante de argumentos novos e antigos que se levantam contra uma defesa intelectual da fé cristã. Refutar profunda e amplamente esses argumentos anti-intelectuais levaria muito tempo e espaço. O que temos aqui é apenas a refutação de uns poucos pontos que são apresentados contra o uso efetivo da apologética.