Introdução – História Apologética de Missões

O Evangelho é antes de qualquer coisa, história. Não proclamamos teorias, ideias, ideais ou planos. Proclamamos fatos. A revelação divina é em grande parte acontecimentos. A salvação não é alguma coisa que descobrimos. Ela é antes de qualquer coisa, fatos ocorridos em um determinado tempo e lugar que possibilitaram a re-conexão do mundo decaído com o Deus transcendente.

Igualmente ela não se constitui meramente do seu ápice, ou seja, a encarnação do Deus Filho, sua morte expiatória e sua ressurreição. A história precedente não foi sem significado. Séculos repletos de pessoas e acontecimentos estão diretamente relacionados com a Providência preparando o momento culminante da redenção.

“O que Deus revela não é somente informação acerca de si mesmo e do destino humano: Ele revela a sua própria pessoa, e esta revelação tem acontecido em uma série de eventos históricos. É por este motivo que Henry [Carl F. H. Henry] escreveu: “A revelação não pode… ser igualada simplesmente com as Escrituras Hebraico-Cristãs; a Bíblia é um segmento especial dentro de uma atividade divina maior de revelação… A revelação especial envolve eventos históricos únicos relacionados à liberação divina, que encontra seu clímax na encarnação, expiação e ressurreição de Jesus Cristo”.1

Todavia, a redenção foi plena, sua aplicação gradativa, sua conclusão aguarda o clímax temporal, isto é, a “consumação dos séculos” (Mateus 28.20). E nesse intervalo entre o “está consumado” e a parousia nós temos a história da Igreja em sua ação para cumprir o mandato de levar o Evangelho a cada etnia da terra. Mesmo que a narrativa daquilo que pode ser definido como Era da Igreja, jamais entre em alguma categoria de revelação, ela com certeza também reflete a manifestação do Todo Poderoso.

Não são poucos aqueles que veem na história da Igreja nada mais do que vergonha para o nome de Cristo. Sendo contaminados por uma auto crítica que beira a auto destruição, alguns pensadores cristãos ignoram duas coisas importantes:

1) O fato de que Israel no Antigo Testamento ter inúmeras vezes se desviado de sua missão de revelar Deus ao mundo. “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Romanos 2.24);

2) Os inúmeros benefícios que a expansão missionária trouxe ao mundo.

Mesmo que em nome do cristianismo muitos crimes foram cometidos ao longo desse período, essa não é a história toda. Não são poucos os estudiosos que se ocupam em resgatar e divulgar verdades e inverdades sobre tais crimes como se o cristianismo tivesse o ódio e o mal como mandamento. Se por um lado acusam a igreja de divulgar fatos positivos e esconder os negativos, eles por sua vez ocultam o que há de positivo e expõe somente o negativo. Sem falar que há muitos historiadores da igreja suficientemente corajosos para apresentar tanto um lado como outro, de forma ainda mais imparcial do que os inimigos do cristianismo o fazem. Se os missionários erraram por ignorância, muito mais foi o que acertaram por amor. Em um mundo decaído onde o mal é o padrão de comportamento, a busca pelo bem do próximo é um ato revolucionário. Claro que a igreja é digna de muitas repreensões. Todavia, não surgiu ainda na história nenhuma substituta para ela no seu papel de redimir o ser humano.

Com certeza o fato de o cristianismo ter sido levado a todas as nações não tornou este mundo perfeito, mas tornou-o menor ruim.


1 LADD, George E. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: Juerp, 1985, p. 26.