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Pentateuco

O Pentateuco – Livro de Moisés?

A primeira parte do Antigo Testamento, que serve de prenúncio a toda a narrativa bíblica, incluindo a neotestamentária, recebe o nome de Pentateuco. O título Pentateuco vem da Septuaginta (LXX) e significa “o livro em cinco volumes”. Existem também outros epítetos atribuídos aos “cinco volumes”, grande parte deles ligados à sua questão autoral, que será discutida mais adiante. As designações: “Livro de Moisés” (2Cr 25.4), “Livro da Lei de Moisés” (Ne 8.1), “Livro da Lei do Senhor” (2Cr 17.9) ou simplesmente “Lei do Senhor” (2Cr 35.26; Ed 7.19), com efeito, remetem ao Pentateuco e ilustram o seu valor intrínseco devidamente reconhecido pelo povo hebreu.

A importância do Pentateuco

O Pentateuco é uma obra de suma importância, pois, em primeiro lugar, fornece explicações históricas e antropológicas relativas à totalidade da raça humana, propiciando ao homem uma explicação definitiva e superiormente coesa acerca de sua própria origem. Em segundo lugar, as páginas do Pentateuco provêem o pano de fundo histórico-teológico requisitado para a compreensão de toda a revelação bíblica a ele posterior. Em outras palavras, ser-nos-ia impossível entender temas bíblicos centrais como a “redenção”, por exemplo, caso o Pentateuco não existisse ou nos fosse desconhecido. Dessa forma, ele é um componente essencial para o correto entendimento da religião cristã.

Embora a importância teológica do Pentateuco não possa ser exaltada o suficiente, talvez, hoje, a questão mais relevante ligada aos cinco primeiros livros das Escrituras seja a sua autoria.

Autoria

Durante muito tempo, a autoria mosaica do Pentateuco foi aceita incondicionalmente. As mais antigas tradições judaicas e gentílicas atribuem o Pentateuco a Moisés. Todo o Antigo Testamento mostra, inquestionavelmente, que o Pentateuco foi escrito por Moisés (Js 1.7,8; 8.31,34; 1Rs 2.3; 2Rs 18.12; 14.6; 1Cr 22.13; 2Cr 25.4; 33.8; Ed 3.2-6; 6.18; Ne 1.7,8). Da mesma forma, Tácito, Juvenal, Strabo e o imperador Juliano reconhecem a origem mosaica dos cinco primeiros livros das Escrituras. Além desses, Maomé, explicitamente, defende a autoria de Moisés para o Pentateuco, como diz Buckland (2007, p.474).

No entanto, em tempos relativamente recentes, a autoria mosaica do Pentateuco recebeu uma contestação mais formal que revolucionaria a forma com que muitos estudiosos concebiam a natureza da Bíblia como literatura. Essa contestação formal da autoria mosaica dos cinco primeiros livros das Escrituras ficou conhecida como Teoria das fontes J. E. D. P., ou “hipótese documentária”.

A hipótese documentária foi o resultado de um movimento iniciado na Alemanha racionalista dos séculos 18 e 19 que visava, a partir de pressupostos cartesianos1, investigar e analisar a autoridade e a historicidade de documentos antigos. Evidentemente, diante do impacto do Iluminismo na mentalidade europeia, a aplicação desse espírito crítico e investigativo alcançou as Escrituras. Neste período, os eruditos da Alta e da Baixa Crítica empreenderam seus esforços visando determinar, com o maior grau possível de exatidão, a veracidade e a historicidade dos documentos bíblicos.

Vale notar que hoje, embora ainda haja muitos fundamentalistas que rejeitem qualquer busca por confirmação acerca dos fatos bíblicos, sejam relacionados à autoria dos livros e das circunstâncias históricas nas quais foram escritos (objeto da Alta Crítica), sejam relacionados ao processo de transmissão do texto bíblico (objeto da Baixa Crítica), a razão de ser dos processos críticos não é má em si mesma. O ser humano, inerentemente inquiridor, certamente buscará uma fundamentação epistemológica da verdade ainda que de antemão esta verdade seja creditada como tal por meio da fé, da confiança. Paulo Hoff, sobre isso, nos diz que a “crítica bíblica, tanto a textual como a alta, pode lançar muita luz sobre as Escrituras se aplicada com reverência e erudição” (2007, p.245).

No entanto, embora a busca metódica pela verdade não seja um mal, ela pode trazer resultados devastadores quando desencadeada por pressupostos inverídicos ou mal investigados. Partindo de premissas demitizantes (e consequentemente, subtratoras do elemento místico/divino da Bíblia) e da teoria do filósofo Hegel de que houve uma evolução na religião dos hebreus (que, no princípio, era animista, e somente mais tarde “evoluiu” para o monoteísmo), os críticos racionalistas aproximaram-se do estudo da Bíblia. No entanto, foi um médico francês quem deu o passo inicial que fundamentou a posterior hipótese documentária.

Jean Astruc, crítico de Paris, notando que determinadas partes do livro de Gênesis empregavam para Deus o nome “Eloim” enquanto outras adotavam o nome “Javé”, concluiu que “Moisés havia usado dois documentos como fontes, cada um com sua maneira especial de designar a Deus” (HOFF, 2007, p.245). Mais tarde, outros estudiosos alemães, baseando-se na observação de narrativas repetidas, histórias aparentemente discordantes e diferenças de estilo, deduziram que Moisés não escreveu o Pentateuco, e quem realmente o redigiu seria um suposto escritor muito posterior, que empregou várias fontes bibliográficas mais antigas para levar a cabo tal empreendimento.

Finalmente, em fins do século 19, Julius Wellhausen e Karl H. Graf “desenvolveram a ‘hipótese documentária’, que foi aceita como a base fundamental da Alta Crítica. Usaram a teoria da evolução religiosa de Israel como um dos meios para distinguir os supostos documentos que constituiriam o Pentateuco. Também a utilizaram para datar esses documentos. Por exemplo, se lhes parecia que determinado documento tinha uma teologia mais abstrata do que outro, chegavam à conclusão de que havia sido redigido em data posterior, já que a religião ia ficando cada vez mais complicada. De modo que estabeleceram datas segundo a medida de desenvolvimento que eles imaginavam. Relegaram o livro de Gênesis, em sua maior parte, a uma coleção de mitos cananeus, adaptados pelos hebreus.” (HOFF, 2007, p.246).

Essencialmente, a hipótese literária de Wellhausen e Graf postula que o Pentateuco é uma combinação de narrativas javistas (J; compostas em c. 950 a.C.), eloístas (E; compostas em c. 850 a.C.), do documento deuteronômico (D; compostas em c. 622 a 587 a.C.), e do documento sacerdotal (P, do alemão “Priestershcrift”; compostas em c. 500 a.C.).

Em resumo, portanto, para os estudiosos racionalistas alemães de alguns séculos atrás, “o Pentateuco não foi escrito por Moisés, mas é uma recompilação de documentos redigidos, em sua maior parte, no século V a.C.”, concluiu Paul Hoff (2007, p.245), uma data muito mais tardia se comparada aquelas costumeiramente atribuídas à redação desse livro pelos eruditos mais tradicionais.

Evidentemente, eruditos conservadores rejeitaram completamente essa teoria e, obviamente, formularam argumentos capazes de refutar a maioria das assertivas da Alta Crítica. Qual, no entanto, seria a preocupação dos estudiosos fundamentalistas em defender a autoria mosaica do Pentateuco? Por que a questão de Moisés ter ou não escrito o Pentateuco é um objeto de tão grande preocupação para os teólogos conservadores? Resta ainda outra indagação, ainda mais contundente: Quais seriam as implicações para a bibliologia e para doutrinas importantes como a da inerrância bíblica, caso o autor do Pentateuco não fosse realmente Moisés, aquele personagem que tantas passagens escriturísticas referenciam como o autor dos cinco primeiros livros?

A resposta mais direta a essas indagações é também a mais óbvia: os estudiosos mais tradicionais preocupam-se, na verdade, com a preservação da inerrância da Palavra de Deus e creem que, se em algum (ou alguns) lugar da Bíblia está escrito que Moisés foi o autor do Pentateuco, e a Bíblia é absolutamente verdadeira em tudo quanto afirma, então Moisés deve realmente ter sido o autor da “Lei”.

Ademais, os teólogos que se opõem às asserções da hipótese documentária também formularam, a partir dos argumentos lançados pela Alta Crítica, contra-argumentos que intentam refutar os argumentos dos colegas de ofício mais liberais. Com efeito, na maior parte das vezes, os mais tradicionais, nessa questão em particular, tiveram êxito, embora as descrições de argumentos e contra-argumentos sejam tão extensas e detalhadas que ultrapassariam os propósitos deste artigo. O estudante que quiser se aprofundar na questão autoral do Pentateuco, deve empreender uma pesquisa mais aprofundada na literatura disponível.

Contudo, tanto a hipótese literária passou por algumas modificações no século 20, quanto os estudiosos conservadores, diante de inúmeras evidências, passaram a crer que existem outras fontes presentes no Pentateuco. Ao mesmo tempo em que descobertas arqueológicas desvendaram o fato de que os documentos J. E. D. P. contêm textos muito mais antigos, alguns dos tempos de Moisés, os estudiosos mais sérios também reconheceram a presença de determinados elementos no Pentateuco que não são de autoria mosaica.

Na introdução da Bíblia de Genebra ao Pentateuco, lemos: “Considerar Moisés o autor do Pentateuco corresponde a afirmar que ele foi a sua fonte e autoridade fundamental e que, em sua maior parte, os livros do Pentateuco foram redigidos originalmente no tempo de Moisés e nas formas em que existem hoje. No entanto, devemos admitir que, em conformidade com práticas conhecidas do Antigo Oriente Próximo, Moisés usou fontes literárias. Em algumas ocasiões, essas fontes são claramente identificadas (e.g. Gn 5.1; Nm 21.14); outras vezes, podem ser inferidas por mudanças nos estilos literários (cf. Gn 1.1-2.3 com Gn 2.4-2.25). Profetas inspirados posteriores que sucederam Moisés na mediação da palavra de autoridade de Deus (cf. Dt 18.15-20), atualizaram o texto em termos linguísticos e históricos e acrescentaram conteúdo, como Gênesis 36.31 e o relato da morte de Moisés (Dt 34.1-12).” (2009, p.3).

Portanto, em relação à autoria do Pentateuco, tomando emprestada uma colocação de R. N. Champlin: “Facilmente Moisés poderia haver incorporado outros materiais, como códigos legais, poemas e relatos, e ainda assim ter sido o único autor-editor do Pentateuco.” (2011, p.198). De fato, hoje em dia não é possível nos comprometermos com um estudo sério da crítica bíblica sem reconhecermos um vigoroso caráter editorial no Pentateuco. No entanto, isso desmerece a veracidade bíblica em afirmar a autoria mosaica do Pentateuco? Absolutamente! Assim como não poderíamos revogar a autoria de uma maquete confeccionada por um artista plástico que posteriormente nos convidou a decorá-la inserindo miniaturas de automóveis, dessa mesma maneira é plenamente possível asseverar a autoria mosaica da Lei do Senhor, mesmo ela se tratando parcialmente de uma obra editada.

Unidade e tema

Os cinco primeiros livros das Escrituras, embora tenham sido redigidos e editados, em sua maior parte, por Moisés, em um período que se estende de 1446 a 1406 a.C. aproximadamente, conformam-se, na verdade, em uma unidade extraordinária. De fato, essa unidade do Pentateuco foi um dos fatores que influenciou a opinião de determinados estudiosos liberais e os fizeram reconsiderar a autoria (ou pelo menos sua maior porção) mosaica dessa obra, bem como a datação dela para séculos anteriores.

A grande unidade orgânica do Pentateuco reside sumariamente no fato de ele consistir, ao mesmo tempo, em cinco livros individuais, porém, unidos e concatenados em mútua dependência. Gênesis, em uma linguagem bastante peculiar e com propósitos estritamente definidos, apresenta os primórdios da humanidade e de tudo o que existe, bem como relata o antiquíssimo período patriarcal introduzindo a história de Israel, uma etnia que simboliza o povo escolhido por Deus. Êxodo narra como o povo hebreu, cativo da grande potência egípcia, sob a liderança de Moisés, é libertado da escravidão e vem a ter os primeiros contatos com Deus. O livro de Levítico constitui-se como um manual sacerdotal para Israel, que os ensinaria detalhadamente os processos litúrgicos do culto a Javé, uma vez que Israel fora por ele liberto e, agora, poderia adorá-lo sem empecilhos externos. Narrando a história de Israel durante sua marcha em direção a Canaã, o livro de Números mostra o povo de Deus e seu exército sendo encaminhados para uma terra que representava o cumprimento das antigas promessas de Deus. Finalmente, o livro de Deuteronômio é composto por três grandes discursos de Moisés proferidos nas campinas de Moabe, que serviriam para lembrar o povo, formado por uma nova geração de israelitas, acerca das leis de Deus, e para estabelecer o cumprimento da vontade do Senhor como um requisito para a posse da Terra Prometida.

Dessa maneira, os livros são ligados de maneira que suas narrativas se unem umas às outras formando, em última análise, uma narrativa contínua. Cada livro, grosso modo, inicia onde o anterior finaliza.

No tocante ao conteúdo dos cinco primeiros livros, eles encerram, além dessa faceta histórica, um aspecto legal e um doutrinário. É digno de nota que tal divisão serve bem a fins didáticos, pois, no Pentateuco, a história, a lei e o elemento doutrinário se fundem, estão íntima e substancialmente ligados. As doutrinas são extraídas de conclusões relativas às leis que, por sua vez, foram apreendidas na história.

A lei foi entregue ao povo israelita visando orientá-lo tanto individual quanto coletivamente nos mais diversificados ramos para que pudessem compor uma nação que refletiria o caráter de Deus, assim como seus padrões éticos. A despeito do grau de validade que se possa atribuir às divisões entre categorias de códigos legais (e.g. lei moral, lei cerimonial etc) e do auxílio que este tipo de divisão possa trazer, o fato é que, mesmo que pudéssemos delinear categorias na lei entregue a Israel, qualquer categoria ou código legal, em última instância, refletiria o caráter divino; mais ou menos evidente se tornaria o eco do caráter de Deus em determinada lei ou conjunto de leis dependendo de sua ou suas aplicações.

Quanto à faceta doutrinária, o Pentateuco certamente desvenda várias doutrinas importantes que são desenvolvidas e amadurecidas no restante do conteúdo bíblico. Asserções importantes como a transcendência de Deus e sua imanência; como sua perfeita sabedoria, poder e abrangência; como a queda do homem, redundando em generalizada corrupção com grande impacto sobre a ordem criada; constatações valiosas como a do favor divino dirigido gratuitamente ao homem que, imerecidamente, o recebe pela fé; além de conceitos messiânicos embrionários, porém evidentes; enfim, todos esses elementos perfazem uma sistemática ordem doutrinária que, embora encontre amadurecimento na progressividade da revelação, se estabelecem claramente no Pentateuco.

Por fim, o “livro de cinco rolos” tem uma relevância vital na revelação especial de Deus: ele dá início ao conteúdo escriturístico fornecendo uma visão clara de qual é o ser de Deus, qual é o ser antrópico, e como se dá o relacionamento entre eles. “O Pentateuco é uma das histórias das alianças da graça de Deus que, em seus desdobramentos, formaram uma nação sacerdotal e santa que levaria a salvação a todos os outros povos.” (PRATT, 2009, p.4).


Referências bibliográficas
BUCKLAND, A. R.; WILLIAMS, Lukyn. Dicionário bíblico universal. 2.ed. São Paulo: Vida, 2007.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. 4.ed. São Paulo: Candeia, 1997, 5o volume.
HOFF, Paul. O Pentateuco. São Paulo: Vida, 2007. PRATT, Richard L. Jr. (Org.). Bíblia de estudo de genebra. 2.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

1Relativo ao método do filósofo René Descartes, que consistia, basicamente, na dúvida metódica.

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