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Ética

Ética social cristã: um esboço introdutório

A ética é um ramo bastante complexo do estudo filosófico, e uma boa incursão em seu campo deve ser empreendida por todas as pessoas, sobretudo pelos cristãos, que creem fundamentalmente em princípios absolutos de certo e errado. Dentro dos termos de ética, naturalmente, podemos encontrar algumas divisões que norteiam estudos mais estritos, e a ética social de orientação cristã é um desses vieses; com efeito, é o caminho sobre o qual concentraremos nossa discussão neste texto.

Infelizmente, a despeito da necessidade patente em buscarmos uma reflexão sólida acerca da ética social, poucos de nós se aprofundam devidamente no tema. Diante desse fato, este artigo adota o objetivo de nos proporcionar alguns fundamentos elementares quanto aos contornos de uma ética social biblicamente orientada. Sobre estes fundamentos, portanto, é que vamos nos debruçar agora.

Ética é uma palavra de origem grega ethos que significa norma, princípio ou regra. Uma vez que esta palavra está associada ao elemento interior do homem, a ética pode ser definida como o ramo do pensamento que busca refletir sobre os princípios morais orientadores das relações humanas. Dentro da proposta de uma ética cristã, estes princípios morais devem ser extraídos da Escritura, a Palavra de Deus1. Ademais, uma vez que está em pauta a ética social cristã, falamos sobre a reflexão ética aplicada ao contexto social, amparada na Escritura como norma última de verdade e autoridade.

Daremos início, dessa forma, pontuando acerca do papel da Escritura para o direcionamento de uma correta teoria ético-social. Nesse ínterim, a pergunta a ser feita é se a Bíblia Sagrada fornece, de fato, princípios morais ou éticos2. E a resposta, aliás óbvia para a maioria, é sim, enfaticamente. Basta a nós pensarmos nos dez mandamentos e em outras inúmeras admoestações de Deus, para que façamos o que lhe agrada e evitemos o que lhe desagrada (certo e errado), e também pensarmos na existência do pecado (erro) como um tema central da Escritura para que, imediatamente, nos convencermos de que a Bíblia aborda a ética, certamente. Como diz o apóstolo:

“Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17).

A grosso modo, toda a Bíblia é útil para nos dizer o que é certo, para nos mostrar quando estamos errados, para nos apontar o caminho – depois de nos conscientizar quanto ao pecado – e para nos educar no caminho da virtude. E tudo isso para que possamos agradar ao Senhor – a glória de Deus é o fundamento último da ética cristã (Ef 2.10).

Tendo estabelecido que a Escritura é útil para o direcionamento do homem na ética correta, devemos também nos questionar se a ética cristã estende-se e concretiza-se em uma ética social. Mais uma vez, a resposta é positiva. Partindo dos princípios de que Deus criou o homem para viver em comunidade e se relacionar (Gn 2.18a; Mt 7.12) e de que o relacionamento com o próximo deve refletir o relacionamento do crente com o próprio Deus (Mt 6.12), afirmamos, inequivocadamente, que a Palavra do Senhor nos orienta a uma ética social, uma ética que contemple o homem como um ser social, um ser que existe em um contexto de relacionamento constante com seus semelhantes e com a ordem criada.

Destarte, a Escritura se afirma indispensável como fonte de princípios morais. Tais princípios e valores existem não somente como reguladores de conduta pessoal, mas abrangem a conduta interpessoal do homem, considerando-o como um ser relacional. No entanto, a ética social cristã se qualifica não como uma disciplina que busca entender, a partir da Escritura, qual deve ser a conduta do homem, mas acima de tudo qual deve ser a conduta humana para com os pobres, os oprimidos, aquelas pessoas carentes dos recursos mais básicos necessários à sobrevivência, à paz e ao contentamento. Neste aspecto é que a ética social cristã busca se aprofundar.

A ética social cristã entende que há diferenças nas condições financeiras entre as pessoas. Entende também que tais diferenças podem ser acentuadas de tal maneira que, enquanto uma pessoa desfruta da abundância de bens e recursos, vivendo em regalias, seu próximo carece dos mesmos bens e recursos, e vive em miséria. Neste aspecto, a ética cristã, em seu elemento social, preconiza alguns pontos importantes, itens que qualificam o pensamento ético-cristão e estruturam padrões morais absolutos a serem buscados pelos discípulos de Cristo. Mas quais são estes pontos?

O primeiro ponto a ser delineado diante dessas conclusões é que a ética social cristã, talvez com exceção de alguns expoentes, considera legítimo o fato de haver alguma desigualdade social. O oitavo mandamento (“não roubarás”) pressupõe tal desigualdade quando aplicado em termos de bens materiais. Ora, está implícito neste mandamento a possibilidade de desigualdades sociais, uma vez que o roubo é frequentemente – mas nem sempre – motivado pela escassez de uma pessoa diante da fartura de outra. Evidentemente, nenhuma diferença social justifica uma atitude pecaminosa. Escassez alguma pode invalidar o princípio eterno do oitavo mandamento e tornar correto o roubo. Contudo, a pobreza frequentemente dá ensejo à cobiça e ao roubo. Desta forma, o mandamento de Deus para que as pessoas não roubem umas as outras pressupõe, de certa maneira, a existência legítima de alguma desigualdade social, que, apenas como mera diferença de poder aquisitivo, não é de modo algum condenável aos olhos do Senhor. Certo artigo no BlogSF (LeiaPrincípios bíblicos para a vida financeira) atesta, em alguma extensão, esta assertiva. Se Deus é eterno e imutável e sua lei reflete seu caráter, então também sua lei é eterna e imutável.  Assim, roubar é errado em qualquer contexto e em qualquer época, porém, ainda mais importante: no oitavo mandamento está implícito o fato de que desigualdades sociais podem existir.

O segundo ponto refere-se à qualidade das possíveis desigualdades sociais. É bastante claro na Escritura que Deus repudia a atitude de alguém que, desfrutando de bens em abundância, não os compartilha com quem carece dos mesmos. Em outras palavras, embora a mera desigualdade social seja totalmente aceitável, a desigualdade brusca (caracterizada pelo contraste entre abundância e ausência) é deveras condenável aos olhos de Deus, pois reflete o egoísmo ímpio, a falta de solidariedade para com o próximo e a maldade intrínseca do ser humano caído. O próprio Deus assevera:

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes;  estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me’. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E responder-lhes-á o Rei: ‘Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes’.” (Mt 25.34-40)

Assim, vemos que é inaceitável uma circunstância na qual uma pessoa desfruta de recursos em excesso, enquanto seu próximo carece destes mesmos recursos e sofre a ausência deles. Tal desigualdade ofende severamente a Deus. Em suma, reafirmamos: Deus não é contra o acúmulo de posses, de maneira alguma – desde que, conforme veremos, elas tenham a finalidade correta. Dessa forma, subsiste o princípio básico da solidariedade, no qual diz-se que “aquele que tem duas túnicas, que dê uma delas ao irmão que não tem nenhuma!” (Lc 3.11)

Ainda relativamente ao segundo ponto e tendo em vista o contexto político de nosso país, me alegro particularmente em salientar a imensurável dicotomia entre a proposta bíblica para a ética social e as proposições do comunismo como sistema econômico e pseudo-redentor da humanidade. Em ocasião oportuna, escreverei sobre o comunismo e seu caráter irreconciliável para com a fé cristã, mas, no momento, sublinho que essas são visões diametralmente opostas: a asserção comunista para a comunhão de bens imposta pelo Estado e o compartilhamento de bens viabilizado pelo espírito da solidariedade cristã. No sistema comunista, em termos rudimentares, a posse de bens é considerada errada e todos os bens pertencem ao Estado, que os distribui. Na visão bíblica, porém, a posse de bens é absolutamente sancionada, sendo estes considerados dádivas divinas, e quem os distribui são os seus possuidores (mordomos, na verdade). No comunismo, a distribuição de bens é mandatória e compulsória, enquanto na visão bíblica a comunhão de bens é voluntária e fruto de um coração regenerado. No comunismo, outorga-se ao Estado a função e responsabilidade que a Bíblia diz ser individual, a saber, a de cuidar dos carentes. Portanto, é necessário que saibamos diferenciar um cenário comunista de um compartilhamento de bens em um cenário genuinamente cristão, no qual o amor ao próximo é vetor de solidariedade e comunhão de recursos.

Como terceiro ponto – consequente dos dois anteriores – temos que a abundância de recursos, providos por Deus a uma pessoa, deve servir para o alcance diaconal dos carentes e necessitados. Disso, duas premissas são particularmente importantes: (I) não somos realmente donos daquilo que temos, mas despenseiros, cuidadores, administradores, mordomos; e (II) o fato de que o acúmulo desenfreado de bens como fim em si mesmo se qualifica como avareza, algo severamente reprovável aos olhos do Senhor. Diz a Escritura: “Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e guardar” (Gn 2.15), mostrando-nos, com o auxílio do contexto canônico total, que Deus é o dono de todas as coisas, e que o homem tem o dever e o privilégio de cuidar dos bens que lhe foram confiados e administrá-los conforme os retos princípios. Também diz a Escritura: “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5), salientando que o acúmulo de bens, quando visado como um fim em si, transforma-se em avareza idólatra. Calvino dizia, com propriedade, que o cristão deve viver uma vida de frugalidade, administrando com generosa disposição os bens de Deus, pois, caso os bens e recursos não sejam aplicados em favor do Reino e do próximo, tais posses, pela concupiscência do coração humano, passam a ser possuidoras daqueles a quem outrora as possuíram.3

Assim, é lícito ao homem ganhar o seu sustento e, mediante seu trabalho, angariar para si e sua família certa dose de conforto. Entretanto, este mesmo homem peca se o acúmulo de recursos que promove redunda em uma vida de glutonarias e desejos desenfreados, enquanto seu próximo padece necessidades. A temperança e a caridade diaconal devem ser alvos constantes na afirmação de uma ética social cristã biblicamente norteada.

Enfim, o quarto e derradeiro ponto afirma que, apesar de todas as pessoas serem alvo de cuidados por parte dos ricos, os irmãos do Evangelho devem ser assistidos primeiro. A Palavra diz:

“Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.10).

Isso significa que o auxílio às pessoas que compartilham da mesma fé é um mandamento bíblico ao mesmo tempo em que é um privilégio. Todas as pessoas devem ser auxiliadas não com base em seus méritos, pois, fosse assim, também nós não seríamos merecedores, mas com base na imagem de Deus que portam. Com efeito, apesar de embotada e danificada pelo pecado, a imagem de Deus ainda está infundida no homem e justifica a assistência geral para todas as pessoas. Mesmo assim, os que são de Cristo são membros de uma mesma família (Ef 2.19) e a exortação bíblica para que cuidemos mais zelosamente de nossa família é mui claramente afirmada na Escritura (1Tm 5.8). Desse modo, os que foram agraciados com abundância devem socorrer a todos os semelhantes, mas, sobretudo, aos irmãos da família celeste.

Logo, o perímetro de uma ética social redimida pelo Evangelho apresenta os pontos delineados citados: alguma diferença social é plenamente aceitável; tal desigualdade não deve nem resultar em acúmulo avarento e nem em fome e carência; e, por fim, esta ética ampara-se no pressuposto bíblico de que a abundância de bens e recursos não serve para o uso desenfreado de quem os possui, mas para a bênção e o cuidado dos que, carentes, caminham em irmandade na fé do Evangelho e, segundo a graça de Deus, de todo o restante da ordem criada.

Vale destacar, apesar do óbvio: este breve artigo não intenta compor uma análise profunda do tema em questão e tampouco traz à tona a plenitude dos tópicos normalmente abordados na ética cristã. Ao contrário, busca o status de motriz para novas pesquisas por parte do leitor; no mínimo, busca dar ensejo a reflexões que gerem mudanças práticas em nossa moral evangélica. Que o Senhor nos constranja a utilizarmos sabiamente as ricas bênçãos que ele nos outorga.


Notas
1 Uma discussão mais completa sobre a necessidade da Escritura para o estabelecimento de uma teoria ética que satisfaça a Deus não cabe nesta reflexão. Contudo, é possível fixarmos a razão pela qual a ética cristã, seja em qualquer de seus subtemas, deve buscar seus fundamentos na Palavra de Deus. Em primeiro, apesar de os mecanismos da razão (e do sensus divinitatis) proporcionarem ao homem a afirmação de regras absolutas e objetivas, tais regras não podem ser aquiescidas pelo raciocínio. Em segundo e mais importante, o ser humano pós-Queda encontra-se completamente depravado, tendo seu coração inclinado para o mal e sua razão desfigurada e embaçada por sua natureza pecaminosa. Este cenário impede completamente o homem de afirmar, por si mesmo, o que deve ser o certo e o que deve ser errado, sendo a Escritura absolutamente necessária para este fim.
2 Recentemente convencionou-se estabelecer uma distinção teórica entre ética e moral. A moral refere-se ao conjunto de regras e valores propriamente ditos. A ética refere-se ao estudo teórico-reflexivo que busca estruturar modelos para essas regras e valores. A moral se mostra mais ligada à práxis enquanto a ética se restringe mais à teoria. Em última análise, pode-se dizer que a ética é a disciplina que reflete sobre o campo da moral. Contudo, neste artigo, algumas vezes empregarei os termos um pelo outro, em permuta recíproca.
3 João Calvino, reformador do século XVI, discorreu amplamente sobre a ética social e sobre o trabalho, redimindo essas esferas da compreensão medieval, na qual a pobreza era sinal da maldição divina e o trabalho braçal era visto com desprezo e repúdio. Em seu comentário sobre 2Co 8.15, Calvino diz: “O Senhor não nos prescreveu um ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia, mas ele nos recomendou a frugalidade e a temperança, e proibiu que o homem exceda por causa de sua abundância. Por isso, aqueles que têm riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e labor, devem lembrar que o excedente não deve ser usado para intemperança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. [… ] Reconheço, deveras, que não estamos limitados a uma igualdade tal que seria errado ao rico viver de forma mais elegante do que o pobre; mas deve haver uma igualdade tal que ninguém morra de fome e ninguém acumule sua abundância a expensas de outrem”.

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