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Dissertação

Dissertação – 15 erros que você não pode cometer

A dissertação em um TCC

Um texto dissertativo é, por definição, um plano de conteúdo de cunho predominantemente argumentativo, que apela ao intelecto do leitor mediante um entrelaçamento coerente, coeso e lógico de ideias. É um tipo de texto mui peculiar, com qualidades que o caracterizam e qualificam como o epíteto “dissertativo”. Dadas sua natureza e suas qualidades distintivas, é o formato de texto mais requisitado em exames, concursos e TCCs.

Visto que o costume generalizado é de se exigir de alunos trabalhos dissertativos (leia: Orientações metodológicas e científicas), identifica-se a necessidade de uma melhor instrução quanto aos principais erros que, normalmente, se comete em uma dissertação e que contribuem para a depreciação dos trabalhos finais dos estudantes.

Assim, o presente artigo tem a intenção de apresentar os quinze erros mais comuns constatados em uma dissertação, a fim de prevenir os estudantes de um modo geral e de auxiliá-los na produção de um artigo, dissertação para um TCC ou até mesmo um livro (leia: Escrever – conselhos e dicas), além de fornecer um instrumental teórico a quaisquer interessados em aprimorar suas habilidades comunicativas. Os quinze erros mais comuns a serem evitados, portanto, são (1) o desprezo pela esquematização prévia do texto, (2) impressão de pessoalidade, (3) arcaísmos, (4) cacofonia, (5) eco, (6) hiato, (7) colisão, (8) prolixidade, (9) pleonasmo, (10) uso excessivo de figuras de linguagem, (11) uso de clichês de linguagem, (12) repetição de palavras, (13) períodos longos, (14) fuga do assunto e (15) erros ortográficos. Analisar-se-á panoramicamente cada um deles.

1) Desprezo pela esquematização prévia do texto

A maioria dos trabalhos textuais bem construídos resulta de uma esquematização prévia do texto, popularmente chamada de “projeto de texto”. A esquematização ajuda o escritor a delinear, de antemão (e, portanto, com muita objetividade e precisão), como o seu texto será construído, qual seu objetivo, seus principais argumentos e resolução do problema apresentado. Ademais, a esquematização auxilia na conformação de todos esses elementos na ordem mais desejável, para conduzir o leitor gradativamente por meio do raciocínio.

Apesar da esquematização do texto dissertativo não acompanhar visualmente o trabalho final, ela está implícita no texto e é facilmente identificável em uma dissertação bem construída. O oposto é verdadeiro, obviamente. Constata-se de pronto a ausência de um projeto de texto ao se avaliar uma dissertação; nota-se que as ideias podem até estar dispostas no trabalho, mas sua conformação se mostra desorganizada, desde uma perspectiva “macro” (o texto inteiro) até uma perspectiva “micro” (as unidades menores, os parágrafos).

2) Impressão de pessoalidade

A dissertação pode ser objetiva quando renuncia ao uso da primeira pessoa e abordam o tema de modo expositivo e crítico, porém, sem deixar que as emoções do enunciatário transpareçam no texto. Outrossim, pode ser subjetiva quando recruta a primeira pessoa (ainda que do plural) e, na argumentação e defesa da tese, materializam no texto emoções do escritor.

A dissertação subjetiva devem ser evitadas a todo o custo. Os textos dissertativos devem ser impessoais, ainda que tratem de temas que deem margem à sensibilização do leitor. Assim, caso o leitor tenha sua emoção despertada pelo texto, isto não será consequência de um apelo emocional no texto. Em suma, a dissertação, a não ser que se solicite expressamente o contrário, deve ser completamente impessoal.

3) Uso de arcaísmos

Arcaísmos são termos que caíram em desuso no idioma. Logo, sua utilização deve ser restringida em uma dissertação. Por exemplo, ao invés de se escrever “reclame”, é preferível o uso de “propaganda”; ao invés de “mancebo”, utiliza-se “jovem”. Em todos os casos em que são notados arcaísmos, termos atuais devem ser prioritários no texto.

Vale lembrar que a renúncia deliberada de arcaísmos não implica na utilização de um vocabulário informal, de maneira alguma. Espera-se do escritor de uma dissertação, principalmente em um TCC, um vocabulário formal, maduro e relativamente amplo. O que se deve limitar são os termos arcaicos, estritamente falando.

4) Formação de cacófatos

A cacofonia se cristaliza quando duas palavras, pronunciadas consecutivamente, originam um som semelhante ao de uma palavra conhecida, porém, desagradável ou inadequada. Por exemplo, ao se pronunciar a sentença “Diego recebe por cada venda realizada”, o encontro das palavras “por” e “cada” sintetiza a palavra “porcada”, evidentemente inapropriada no contexto de um trabalho dissertativo formal. É claro que o escritor bem-intencionado, ao redigir a sentença tomada como exemplo, não queria que um termo como “porcada” resultasse da leitura de seu texto. Contudo, o redator, em suas leituras de revisão, deve estar atento a formações de cacófatos.

5) Formação de eco

O eco no texto se caracteriza por uma sequência de palavras terminadas pelo mesmo som. Quando lidas, ainda que em voz baixa, causam um efeito desagradável para o leitor e o distraem em sua leitura.

Um exemplo de eco poderia ser dado pela sentença “o odor daquela flor é muito bom!”. Repare que “odor” e “flor” possuem o mesmo som final. Portanto, em casos como este, o redator precisa substituir uma das palavras por um sinônimo, a fim de evitar o eco. Utilizando o mesmo exemplo, a sentença seria melhor escrita da seguinte maneira: “o cheiro daquela flor é muito bom!”.

6) A formação de hiatos

O hiato, como ocorrência indesejável em uma dissertação ou em qualquer texto, é um efeito dissonante que emerge a partir de uma sequência ininterrupta de vogais. Por exemplo, a sentença “ao ir ao ourífice pela amanhã” causa, para o leitor, um efeito desagradável em sua leitura. Ao pronunciar, ainda que mentalmente, duas palavras seguidas, uma terminada e outra iniciada por vogal, a dissonância produzida desfoca a atenção do conteúdo para o som, da mesma forma que acontece com o eco.

7) Colisão

A colisão é o efeito dissonante causado pela união de duas ou mais palavras com muitas consonantes ou de palavras vizinhas finalizadas e iniciadas, respectivamente, por consoantes. A sentença “Que quer ele com um carro como aquele?” é um bom exemplo da ocorrência do efeito colisão. Outro exemplo poderia ser encontrado na oração “depois de degustar deixe para Daniel”. Repare, lendo em voz alta esta sentença, que a pluralidade da consoante “D” torna a leitura pouco natural e dissonante para os ouvidos.

A fim de evitar a colisão, basta pensar em modos de reescrever a sentença na qual ela ocorre em nossa dissertação. Por exemplo, a primeira sentença poderia ser reescrita assim: “O que ele espera adquirindo um carro Mercedes?”; e a segunda, assim: “Após sua degustação, guarde um pouco para o Daniel”.

8) Prolixidade

A prolixidade é uma das ocorrências mais frequentes em uma dissertação; pode se caracterizar através de três maneiras (relacionadas entre si), sendo que às vezes mais de uma maneira ocorre ao mesmo tempo.

A primeira forma de prolixidade pode ser descrita como a utilização exagerada de palavras em um só período da oração. Trata-se de uma inserção desnecessária de adjetivos e informações secundárias no conteúdo. Por exemplo, observe a seguinte oração prolixa: “Luana, ao acordar naquela linda manhã, ensolarada e alegre, cheia de sons maravilhosos da natureza perfeita que Deus criou em sua sabedoria infinita e poder absoluto, desceu ao saguão para o café-da-manhã”. Repare que, se a intenção do escritor não é discorrer sobre Deus, a maior parte da informação nesta oração é completamente dispensável. Na verdade, é obrigatório que se dispense as informações secundárias, pois elas ofuscam o objetivo da oração e confundem o leitor. Observe como essa mesma sentença poderia ser reescrita de modo muito mais objetivo, acurado, limpo e eficiente para fornecer sentido: “Luana, ao acordar naquela manhã, desceu ao saguão para o café-da-manhã”, ou ainda “Luana, ao acordar naquela linda manhã, desceu (…)”.

A segunda forma pela qual a prolixidade ocorre é mediante a formação de períodos muito longos. Ainda que adjetivos e informações secundárias não sejam utilizados, é possível ao enunciatário escrever conteúdos com períodos intermináveis, que tornam a compreensão do texto bastante confusa. Observe o exemplo: “A teologia é uma ciência multidisciplinar que ajuda o homem a compreender o ente Divino e sua relação para com os seres criados, sendo óbvio que o homem só compreende o que se pode compreender acerca de Deus segundo o que Deus revela sobre si mesmo, bem como que a fonte primordial para a produção teológica deve ser a Escritura Sagrada”. Esta sentença confusa e cansativa deveria ser reescrita com períodos menores (máximo de três verbos por período) e objetivos. Veja: “A teologia é uma ciência multidisciplinar que ajuda o homem a compreender o ente Divino e sua relação para com os seres criados. Obviamente, o homem só compreende o que se pode compreender sobre Deus. Essa compreensão ocorre segundo o que Deus revela sobre si mesmo. Além disso, a fonte primordial para a produção teológica deve ser a Bíblia”. Períodos menores são, portanto, mais desejáveis para uma boa dissertação.

A terceira forma de prolixidade ocorre com a utilização de palavras sofisticadas demais para o vocabulário do escritor, gratuitamente inseridas no contexto para chamar a atenção do avaliador. É claro que um bom vocabulário, rico e vasto, é desejável; também é evidente que o vocabulário formal é o único aceito para um texto dissertativo. Contudo, o redator não deve se valer de palavras alheias ao seu conhecimento, porque tal incursão é facilmente identificável por um avaliador mais experiente. Se o enunciatário possui um vocabulário rico e vasto, ótimo. Se não possui, não deve forjar um. Ao contrário, deve enriquecer naturalmente seu acervo vocabular, através da leitura. Por exemplo, observe como a seguinte sentença segue com um vocabulário natural e, repentinamente, apresenta uma palavra que, dada sua complexidade, destoa do contexto: “Os alunos estavam entendendo a explicação da professora. Ela dava suas aulas e os estudantes respondiam às suas perguntas. Porém, Diego disse que não aquiesceu ao último conteúdo”. Repare como a palavra “aquiesceu” foge, gratuitamente, ao nível do vocabulário que vinha sendo utilizado.

A conclusão é que uma dissertação não carece, primariamente, de um vocabulário rico. Antes, outras competências são necessárias para que uma boa dissertação se consolide. Se vierem acompanhadas de um bom repertório de palavras, melhor. Se não, ainda é possível escrever textos excelentes sem recorrer à prolixidade artificial.

9) Pleonasmo

O pleonasmo, também frequente nas dissertações, consiste na desnecessária redação de duas palavras diferentes, porém, com sentidos iguais, consecutivamente. Por exemplo: “certeza absoluta” (uma certeza, por definição, é absoluta), “pequeno detalhe” (todo detalhe é pequeno), “elo de ligação” (existe algum elo que não conecte duas coisas?).

Os pleonasmos exibem pobreza de linguagem, entre outras inaptidões por parte do escritor.

10) Uso excessivo de figuras de linguagem

O uso de figuras de linguagem não é característico de textos dissertativos, embora seja enfatizado em outros tipos de texto. Assim, deve ser evitado ao máximo em dissertações. O ideal, com efeito, é que nenhuma figura seja empregada em uma dissertação.

Metáforas, símiles, metonímias, prosopopeias, etc., são figuras de linguagem; e um trabalho dissertativo, em virtude de seu caráter objetivo e denotativo, deve evitar o uso dessas figuras.

11) Uso de clichês de linguagem

A utilização de frases prontas, de clichês de linguagem, é mais comum do que se pode imaginar em dissertações. No entanto, o emprego desses “lugares-comuns” deve ser restringido sistematicamente, pois empobrece o texto e aponta para a inabilidade do redator em se comunicar com criatividade. Frases como “fechar com chave de ouro”, “chegar a um denominador comum”, “a nível de”, “deixar a desejar”, “levantar a cabeça e partir para outra”, “a esperança é a última que morre”, “devemos unir nossos esforços”, entre outras, exemplificam o tipo de linguagem desgastada a que um bom texto deve renunciar.

12) Repetição de palavras

Tome por exemplo a seguinte frase: “Os alunos são aplicados, mas o teste final será difícil para todos os alunos”. Observe a repetição desnecessária da palavra “alunos”. Esta repetição qualifica o erro enunciado neste tópico. Em outros termos, a repetição é, como o próprio nome indica, o emprego repetido de palavras iguais na mesma oração ou sentença.

A repetição de palavras deprecia o texto, demonstra falta de criatividade por parte do enunciatário, evidencia um vocabulário fraco e falta de conhecimento de técnicas de redação. Contudo, é facilmente contornada pelo emprego adequado de pronomes ou de sinônimos.

13) Períodos longos

O emprego de períodos longos já foi reprovado quando se falou em prolixidade. Mesmo assim, este erro é tão frequente que merece ser endereçado à parte neste artigo. Períodos demasiadamente longos cansam o leitor, o confundem e tornam o texto desinteressante.

O que caracteriza um período longo foi abordado anteriormente. Um exemplo de sentença com período longo também foi fornecido. Cabe, neste ponto, a proposta de soluções para evitar esse erro dissertativo.

Primeiramente, o escritor deve sintetizar suas ideias em frases menores sem, contudo, renunciar a coesão entre elas. Uma segunda dica se refere ao emprego de pontos finais em detrimento de vírgulas (quando se nota uma grande quantidade delas no período). Terceiro, o escritor deve se sentir à vontade para reorganizar seu texto da melhor maneira possível, sempre visando à objetividade e à clareza. Para isso, basta pensar em construções frasais alternativas. Por fim, basta, na maioria das vezes, evitar a prolixidade que, automaticamente, se evitará períodos longos.

14) Fuga do assunto

A fuga do assunto é um dos erros mais graves encontrados em uma dissertação. Os trabalhos dissertativos são delineados por clareza, objetividade, coesão e coerência. Em um ambiente textual com predicados como esses, a fuga do assunto se constitui como um “pecado imperdoável”; ela desvia a atenção do leitor, requisitando sua compreensão para um conteúdo que sequer deveria estar presente no discurso.

Apesar de ser um erro grave nas dissertações, a fuga do assunto pode facilmente ser evitada mediante a elaboração de um projeto de texto. Quando se esquematiza o texto antes de sua devida redação, os assuntos de cada parágrafo são previamente determinados e, todos eles, são coerentemente ligados ao tema e ao problema que motivaram a confecção do trabalho. Logo, uma boa esquematização do texto dissertativo evita um dos piores erros que podem acometê-lo.

15) Erros ortográficos

Finalmente, uma redação dissertativa, ainda que bem esquematizada e construída criteriosamente, quando apresentada com erros ortográficos, pode sucumbir na avaliação final. Os erros ortográficos depreciam o texto e exibem, implicitamente, descaso para com a língua portuguesa.

Felizmente, a ortografia de um texto pode, na maioria das vezes, ser averiguada por um profissional das letras antes de ser encaminhado a uma avaliação final. Tal procedimento é fundamental para que o trabalho do aluno não seja prejudicado por erros ortográficos.

Enfim, pode-se constatar que escrever uma dissertação não é um trabalho fácil, que se dá automaticamente e que não carece de treino e de uma atenção deliberada. Dissertações são textos exigentes. Contudo, o treino e o engajamento por parte do estudante, na elaboração desse gênero textual, elevam a capacidade de escrita de modo que, pode-se dizer: a boa construção de textos dissertativos é muito menos uma questão de dom do que de técnica adequada e treino frequente.

Ademais, com a ciência dos erros mais frequentes encontrados em dissertações, o escritor/aluno pode se precaver contra avaliações negativas em seus trabalhos; mais do que isso, pode melhorar suas técnicas de redação e se comunicar de maneira mais eficiente. Vale atentar, portanto, aos quinze erros dissertativos expostos neste artigo.

 

Comentário

  • Nelson Roque
    Responder

    Erros frasais exemplos, como não cometê-los

  • Ana
    Responder

    MT bom

  • Vinícius
    Responder

    Sobre a impressão de pessoalidade, por que as revistas de maior prestígio internacional recomendam o uso da primeira pessoa? A ideia de impessoalidade vem de uma concepção equivocada de ciência. Antigamente, acreditava-se que as evidências empíricas determinavam as conclusões, no entanto, este paradigma já foi superado há décadas. Impessoalidade no texto científico é um erro filosófico. Recomendo a leitura dos trabalhos do professor Gilson Volpato.

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